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"Luiz Carlos Prestes entrou vivo
no Panteon da História.  
Os séculos cantarão a 'canção de gesta'
dos mil e quinhentos homens da
Coluna Prestes e sua marcha de quase
três anos através do Brasil.
Um Carlos Prestes nos é sagrado.
Ele pertence a toda a humanidade.
Quem o atinge, atinge-a."

(Romain Roland, 1936)


Artigos
Braudel, Foucault, Lévi Strauss e a CIA
Escrito por Pablo Pozzi 26.Jun.17 Outros autores   

Foi desclassificado um documento de trabalho da CIA que fala do processo visando influenciar a intelectualidade francesa. Designa-o, justamente, como “guerra cultural” antimarxista, e já vem estando muito amplamente documentado. Essa guerra prossegue até aos nossos dias, e é muito interessante comparar o perfil dos intelectuais que a CIA considera mais eficazes para os seus objectivos com certas figuras “de esquerda” com lugar cativo na nossa comunicação social.

A Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana acaba de desclassificar um documento de trabalho que comprova, e fornece alguns dados novos, a sua política em relação à intelectualidade progressista e de esquerda (PDF). O documento intitula-se «França: a defecção dos intelectuais de esquerda» e descreve, detalhadamente, como captar e influenciar intelectuais, particularmente aqueles cujo núcleo eram a revista Annales, a Ecole des Hautes Etudes, e os que se tomavam como referência Michel Foucault, Jacques Derrida e Jacques Lacan, no que encara como «uma guerra cultural». Embora o documento se centre nos intelectuais franceses, os princípios e critérios que enuncia foram aplicados através do mundo. No mesmo descrevem-se as suas tácticas e estratégias para gerar um ambiente intelectual antimarxista a partir da influência sobre os intelectuais pós-marxistas e os críticos do Partido Comunista francês.


O documento considera que «durante os protestos de Maio-Junho de 1968 […] muitos estudantes marxistas olhavam para o PCF esperando liderança e proclamação de um governo provisório, mas a direcção do PCF tratou de aplacar a revolta operária e denunciou os estudantes como anarquistas». A partir daí surgiram os «Novos Filósofos» que, desiludidos com a esquerda, «rejeitaram a sua aliança com o PCF, o socialismo francês, e as premissas básicas do marxismo». Estes intelectuais pós-marxistas são considerados como muito mais eficazes na guerra cultural do que os intelectuais conservadores da direita, como Raymond Aron. Isto deveu-se a que os intelectuais conservadores se tinham desprestigiado pelo seu apoio ao fascismo. Em contrapartida, os assim denominados intelectuais democráticos, com a sua crítica à URSS e ao comunismo, eram úteis e, sobretudo, eficazes.

A partir destas considerações iniciais, o documento refere que:

«Entre os historiadores franceses do pós-guerra, a influente escola ligada a Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel arrasou os historiadores marxistas tradicionais. A escola de Annales, como é conhecida pela sua principal publicação, virou do avesso a investigação histórica francesa, principalmente desafiando primeiro, e rejeitando depois, as teorias marxistas do desenvolvimento histórico. Embora muitos dos seus exponentes pretendam estar dentro “da tradição marxista”, a realidade é que apenas utilizam o marxismo como um ponto crítico de partida […] para concluir que as noções marxistas sobre a estrutura do passado - de relações sociais, do padrão dos factos, e da sua influencia a longo prazo - são simplistas e inválidas.»

«No campo da antropologia, a influencia da escola estruturalista ligada a Claude Lévi Strauss, Foucault e outros, cumpriu essencialmente a mesma função. […] cremos ser provável que a sua demolição da influência marxista nas ciências sociais perdure como uma contributo profundo tanto em França como na Europa Ocidental.»

Os autores do documento elogiam em particular Foucault e Lévi Strauss por «recordarem as sangrentas tradições da Revolução Francesa» e que o objectivo dos movimentos revolucionários não era tanto a profunda transformação social e cultural de uma sociedade mas antes o poder. Por acréscimo, segundo o documento, a teoria francesa pós-marxista realizou uma contribución inestimável ao programa cultural da CIA que tentava deslocar os intelectuais de esquerda para a direita, enquanto desacreditavam o anti-imperialismo e o anti capitalismo, permitindo a criação de um ambiente intelectual onde sus projectos podiam ser levados a cabo sem serem molestados por um serio escrutínio intelectual.

O essencial era não só desacreditar o marxismo como teoria, como também quatro aspectos vinculados entre si:

1. Fracturar a esquerda cultural em diversos movimentos através do que se denomina «políticas de identidade». Neste sentido, as reivindicações de classe, o conceito em si, e a luta de classes como motor da historia, diluem-se numa grande quantidade de movimentos diversos, sem que nenhum aceite a primazia do conceito básico do marxismo, as classes sociais: estes intelectuais de Nova Esquerda opor-se-ão «a qualquer objectivo de unidade da esquerda».

2. Desvia-se a atenção do capitalismo (e dos EUA) como causador dos problemas do mundo, para problemas como o consumo, a falta de democracia ou de educação (e a URSS). «O anti sovietismo converteu-se na base de legitimidade do trabalho intelectual».

3. Torna-se difícil mobilizar as elites intelectuais em oposição às políticas imperiais dos EUA, visando a fracturar sectores médios da classe operária. De facto, sublinha que «há um novo clima de antimarxismo e de anti sovietismo que dificultará a mobilização de uma oposição intelectual às políticas dos EUA».

4. Equiparava-se o marxismo com «anti-cientificidade», e o compromisso político de esquerda entre os intelectuais é considerado como «pouco serio» e «subjectivo»: os intelectuais da Nova Esquerda estão «menos dispostos a envolver-se e tomar partido».

Muito do que se coloca no documento não é novo, embora constitua uma confirmação da importância que a CIA atribuiu às novas tendências intelectuais na sua luta antimarxista. Um elemento notável é que não faça quase referência aos volumosos fundos que a CIA destinou a captar intelectuais de esquerda. Por exemplo, Frances Stonor Saunders (A CIA e a Guerra Cultural) indicou que a Agencia não informava o governo norte-americano de que estava financiando diversos projectos «de esquerda» que contribuíram para afastar seres humanos de objectivos igualitários ou classistas. De facto, um dos aspectos que ela revela é que a CIA preferia «marxistas reformados» aos tradicionais conservadores e direitistas. Por «reformados» entendia-se aqueles esquerdistas que se tinham decepcionado com o comunismo, ou eram críticos da URSS.

Esta promoção de intelectuais «reformados», em especial os pós-marxistas, foi acompanhada por importantes recursos económicos, acesso a editoras e meios de comunicação, e inclusive a nomeações académicas. Assim, refere o documento, diversas obras de personagens como André Glucksmann e Bernard Henri Levy converteram-se em best-sellers. Por exemplo, segundo Tom Braden, que foi director da Área de Organizações Internacionais da CIA, a Agencia comprou milhares de exemplares das obras de Hannah Arendt, Milovan Djilas, e Isaiah Berlin para os promover. Outro exemplo, não mencionado pelo documento, é que a VIª secção da Ecole Pratique des Hautes Etudes, que alojava Lucien Febvre e Fernand Braudel, foi estabelecida em 1947 com um financiamento recebido através da Fundação Rockefeller. E foi depois financiada através da Fundação Ford, incluindo os dinheiros e influencias necessárias para se converter em Ecole Pratique des Hautes Etudes en Sciences Sociales, com legitimidade para outorgar títulos universitários. Como referiu Kristin Ross, no seu livro Fast Cars, Clean Bodies: Decolonization and the Reordering of French Culture (1996):

«Nas décadas de 1950 e 1960 Braudel, Le Roy Ladurie e outros da VIª Section, criaram o que Braudel denominou ‘uma historia onde as mudanças são quase imperceptíveis […] uma historia onde a mudança é lenta, de repetição constante, de ciclos recorrentes’. Os seus inimigos mais formidáveis habitavam em frente, na [Universidade da] Sorbonne: uma longa linhagem de historiadores marxistas da Revolução Francesa, como Georges Lefebvre e Albert Soboul. E o que estava em jogo era que substituíam o estudo da historia dos movimentos sociais e a mudança abrupta ou a mutação histórica pelo estudo das estruturas, ou seja apagava-se a própria ideia de Revolução. Estes historiadores marxistas [enfrentavam…] colegas modernizados, com larga provisão de fundos, e muito bem equipados com computadores e fotocopiadoras» (pág. 189)

E isto foi complementado com viagens, bolsas, subsídios, e uma quantidade importante de seminários internacionais destinados a promover tanto a visão de Annales como o estruturalismo de Claude Lévi Strauss. Em síntese, se os intelectuais de esquerda não encontram os recursos necessários para prosseguir as suas investigações, ou para as publicar, então encontram-se subtilmente forçados a aceitar a ordem estabelecida, enquanto adoptam as modas intelectuais hegemónicas para poder encontrar emprego. O resultado é o debilitamento do pensamento de esquerda e da configuração de um efectivo agir revolucionário.

www.deigualaigual.net
odiario.info

Texto completo en: http://www.lahaine.org/braudel-foucault-levi-strauss-y

Última atualização em Ter, 27 de Junho de 2017 14:05
 
UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE. Para onde vamos: socialismo ou barbárie?
Escrito por Anita Leocádia prestes   

Transcorrido um ano de governo de Michel Temer, não há mais dúvida de que sua posse resultou de um golpe parlamentar-jurídico, cujo objetivo central foi liquidar as conquistas dos trabalhadores brasileiros consagradas na legislação do país. Nesse sentido, são emblemáticas as propostas encaminhadas ao Congresso Nacional das reformas trabalhista e da previdência, assim como os esforços voltados para invalidar os direitos democráticos consagrados na Constituição de 1988, não obstante suas limitações, apontadas por Luiz Carlos Prestes, no que diz respeito ao artigo 142 dessa Carta, ou seja, à manutenção da tutela militar acima dos três poderes da República1. Artigo este usado pela primeira vez pelo atual governo para reprimir manifestação popular realizada recentemente em Brasília.

Última atualização em Seg, 17 de Julho de 2017 19:50
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1917 - Quatro notas no centenário da Revolução Bolchevique
Escrito por Higinio Polo*   

Recordar a revolução bolchevique não é um exercício de nostalgia do passado mas um tempo de aposta no futuro, no socialismo e no carácter social que devem ter as forças produtivas. A revolução de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucionárias no mundo, e a sua contribuição para a construção do socialismo não desapareceu, porque o capitalismo não pode resolver os problemas da humanidade. Aqui reside o valor da revolução bolchevique e da visão de Lénine.

1. 1917 é uma data germinal, que pôs ante os olhos dos trabalhadores do mundo a certeza de que acabar com o capitalismo e construir o socialismo é possível. Nessa data termina o velho mundo burguês que tinha ensanguentado o planeta no século XIX e inicia-se uma nova era, onde a união operária e socialista criada pela revolução bolchevique enfrentará o projecto de modernidade capitalista que foi o nazismo. A revolução bolchevique mudou radicalmente o destino da Rússia e do mundo. Cinquenta anos depois da publicação de O Capital, a Rússia convertia-se numa referência global, e a revolução levou o país a ser uma das duas superpotências mundiais.

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Olga Benario Prestes: Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo
Escrito por Anita Leocadia Prestes   

 

Última atualização em Ter, 16 de Maio de 2017 19:44
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Uma volta a Gramsci para pensar na política de nosso tempo
Escrito por João Vitor Santos | Tradução: Juan Luis Hermida   

Antonio Gramsci foi uma figura importante do Partido Comunista da Itália, mas, além de seu legado para a construção dessa perspectiva política, é interessante observar seus movimentos de revisão do pensamento sobre o Partido e dos próprios conceitos. É mais ou menos o que faz quando produz suas anotações na prisão, vítima do regime de Benito Mussolini. “Gramsci desde dentro de uma prisão fascista tinha visto melhor e mais longe, e o movimento comunista internacional e também o seu partido tiveram, no final, que lhe dar a razão, pelo menos parcialmente”, destaca o professor de História do Pensamento Político, o italiano Guido Liguori. “A Internacional Comunista teve que abandonar a política sectária e extremista do final dos anos ‘20 e do início dos anos 30’, reavaliar a questão do consentimento, das alianças, da democracia, reaproximando-se assim do pensamento gramsciano”, explica.

Tal movimento pode ser interessante, por exemplo, para pensar o papel e o lugar da esquerda no mundo de hoje. “A esquerda perdeu, em muitos países, a capacidade de uma proposta independente, cultural, bem como econômica, distintamente diferente daquela das classes dominantes”, aponta Liguori, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, o maior equívoco é apostar num mesmo remédio que a direita usa para enfrentar as crises. É “curar um sistema doente (o capitalismo), embora com diferentes medicamentos”. Assim, o professor destaca que o partido o qual Gramsci “pensa está de mãos dadas com os movimentos”, pois “sabe que não deve apenas ‘ensinar’ para as massas, mas também aprender com elas”. E aponta: “hoje a política e os partidos me parecem pouco dispostos a fazê-lo”. 

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